Introdução
A crucificação de Jesus é o evento central do cristianismo, mas existe um debate antigo: teria acontecido numa sexta-feira, como afirma a tradição, ou numa quinta-feira, como defendem alguns intérpretes? A resposta não é apenas curiosidade: envolve a confiança histórica dos Evangelhos e a coerência entre os relatos sinópticos e o Evangelho de João.
As Fontes e o Problema Cronológico
- Dia da Preparação (paraskeuḗ)
Nos quatro Evangelhos, Jesus é crucificado no “dia da Preparação”, isto é, o dia antes do sábado. Já no grego antigo, esse termo tornou-se designação técnica para a sexta-feira. - O “Sábado Solene”
João 19.31 afirma que aquele sábado era “grande”, pois caía durante a Páscoa. Isso explica a pressa no sepultamento, mas não exige alterar o dia da crucificação. - Três dias e três noites (Mt 12.40)
O judaísmo do período usava contagem inclusiva: qualquer parte de um dia contava como um dia inteiro. Assim, sexta (parte do dia), sábado e domingo perfazem “três dias”. - Sinópticos e João
O aparente conflito sobre a ceia pascal pode ser explicado sem mudar o dia da crucificação: João pode estar usando linguagem teológica ao falar da “preparação da Páscoa”, e os Sinópticos relatam Jesus antecipando sua refeição pascal com os discípulos.
Posição Tradicional: Crucificação na Sexta-feira
Defendida por biblistas como Harold Hoehner, Raymond Brown, Andreas Köstenberger e Craig Evans.
- O termo paraskeuḗ é inequívoco: sexta-feira.
- A urgência do sepultamento confirma o sábado seguinte.
- A contagem inclusiva justifica o “terceiro dia”.
- Astrônomos como Colin Humphreys identificam sexta, 3 de abril de 33 d.C., como a data mais provável.
Posição Minoritária: Crucificação na Quinta-feira
Sustentada por alguns teólogos e pastores.
- Defendem leitura literal de Mt 12.40: “três dias e três noites” exigiria mais noites do que o modelo tradicional.
- Consideram o “sábado solene” de João como referência ao primeiro dia da festa dos Pães Asmos.
Fragilidades: precisam reinterpretar o uso de paraskeuḗ e desconsiderar a prática da contagem inclusiva, além de multiplicar hipóteses auxiliares.
O Papel do Calendário Judaico
Outro ponto de grande relevância é o impacto do calendário judaico na leitura do texto bíblico. O judaísmo do período do Segundo Templo adotava diferentes tradições de calendário — alguns grupos usavam o calendário lunar oficial, enquanto outros, como os essênios, seguiam um calendário solar. Essa diversidade explica em parte por que João pode ter descrito a refeição de Jesus em termos diferentes dos Sinópticos. Estudos arqueológicos de Qumran confirmam que, dentro do judaísmo do século I, havia mais de uma forma de marcar a Páscoa. Assim, ao invés de contradição, o que encontramos nos Evangelhos é uma perspectiva plural de celebrações pascais em uma Judeia complexa e multifacetada.
Teologia dos Evangelistas
Além disso, é fundamental destacar a intenção teológica dos evangelistas. Mais do que oferecer uma cronologia rígida, cada autor deseja mostrar o significado da morte de Jesus. Para João, a crucificação no “dia da Preparação” enfatiza que Cristo é o verdadeiro Cordeiro pascal, cuja morte coincide com o sacrifício dos cordeiros no Templo. Já os Sinópticos sublinham que Jesus compartilhou a refeição pascal com os discípulos, revelando-se como o centro da nova aliança. Essa diferença de ênfase não compromete a historicidade, mas amplia a compreensão: Jesus é, ao mesmo tempo, o cordeiro imolado e o anfitrião do novo êxodo espiritual.
Data Exata: 30 ou 33 d.C.?
Alguns defendem 30 d.C., outros 33 d.C. A maioria aceita a crucificação em sexta-feira, próximo à Páscoa, entre 29–34 d.C.
Conclusão
O conjunto das evidências — linguísticas, históricas e astronômicas — favorece a sexta-feira como o dia da morte de Jesus. A hipótese da quinta ajuda a iluminar alguns detalhes, mas a tradição permanece sólida: Cristo morreu na sexta, e ressuscitou “no primeiro dia da semana”.
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